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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Réquiem para os Homos

Autoria: Janer Cristaldo


28/1/2000


Era Madri. Faz uns dez anos. Uma professora peruana de letras louvava a poesia de Lorca, quando um colega mexicano, com ares de Pancho Villa, deu sua colaboração ao debate:

Poeta sí. Pero maricón!

A peruana, em estado de choque, alegou que nada sabia sobre sua vida privada. O discurso da professora voltava no tempo. Ao chegar a Cervantes, o mexicano aguafiestas atalhou de novo:

Ese, parece que también!

A moça engoliu em seco, lembrou que o Miguelito vivia em um universo cristão.

Cristão em termos — atalhei — afinal foi prisioneiro durante anos de um bei em Argel, entre muçulmanos pouco chegado a mulheres. Isso sem falar em seus dias de Florença, junto ao cardeal Acquaviva, homossexual notório. Falar nisso, aventei, há uma tese de que o Cristo...


Foi falar no santo homem, a professorinha pediu seus sais e abandonou a roda. Era revelação demais para uma peruana numa tarde só. Isso que estávamos longe dos dias em que André Gide pesquisava discretamente os mictórios interessantes de Roma. Alertado por amigos de que estava se expondo demais, tranqüilizava-os:

— Meu Nobel me dá cobertura.

Os tempos — e a geografia — eram outros que não os de Oscar Wilde, que teve a vida destruída no cárcere por ousar assumir seus amores por um jovem efebo.

Comportamento não só aceito como também louvável na Grécia de Platão e Sócrates, o homossexualismo foi satanizado por dois mil anos de cristianismo. O que era prazer virou doença e sua prática foi tipificada como crime pelos códigos penais.

Se esta nova conceituação gerou não poucas vítimas ao longo da história, só temos o registro dos casos mais gritantes. Dois ou três fatores conjuntos geraram o mártir mais célebre: uma Inglaterra puritana, um escritor de gênio e um processo penal desastroso. Se não era possível condenar a literatura de Wilde, os aforismos e paradoxos com que fustigava sua cultura e sua época, punia-se o homem.

O cristianismo conferiu ao homossexual uma aura satânica, a do rebelde por excelência, o que insiste em empunhar a bandeira de Lúcifer: non serviam. Em bom português: não servirei. Se o Estado pede reprodutores, o homossexual sonega sua semente. Se a moral pede chefes de família, o homossexual é o excluído dos ambientes familiares. O celibato era seu cartão de visita. A partir de certa idade, todo celibatário tinha um só estado civil: suspeito.

Enquanto o hetero casado vivia preso ao sustento da família e à fidelidade — pelo menos formal — à esposa, o homo não tinha dependentes e todos os parceiros do mundo estavam ao alcance de seu desejo. Se ao pai lidar com a urina, ranho e fezes de suas crias, o homo vivia l'embarras du choix: com quem sair esta noite? Enquanto o hetero investia semanas e até meses para superar aquelas etapas do orgulho feminino, das quais falava Stendhal, ao homo bastava um olhar cúmplice para estabelecer contatos imediatos. Portava um estigma, é verdade. Mas gozava de uma liberdade não conferida a qualquer mortal.

Na mesma França em que morreu Wilde, em 1900, pobre e execrado, surge cem anos depois o enquadramento legal do rebelde. É o Pacte Civil de Solidarité (PACS), contrato assinado entre duas pessoas maiores, de sexo diferente ou do mesmo sexo, para organizar sua vida comum. Como o casamento parece ter-se tornado um jugo difícil de portar, cria-se a figura legal de uma espécie paralela de casamento, mais abrangente, menos burocrática e mais facilmente dissolúvel. Se você vive com outra pessoa e não quer ou não pode casar-se, mas quer organizar as modalidades da vida em comum dentro de um quadro jurídico estável, você vai até o cartório e faz um PACS com seu parceiro. A nova lei faz furor: promulgada em 15 de novembro passado, já foi utilizada por mais de 12 mil pessoas em seu primeiro mês e meio de vigência.

Se o novo contrato pode ser celebrado entre pessoas de sexo diferente, em Paris 75 % dos pacsados (pacsés, na nova terminologia francesa) são homossexuais. Na província, 40%. Algumas ressalvas são feitas, ao estilo do antigo casamento. Os candidatos à união não podem ser casados, nem ter celebrado PACS com outro parceiro. A união não pode ser legalizada entre avós e netos, pais e filhos, irmãos e irmãs, tia e sobrinho, tio e sobrinho, sogros e genro ou nora.

Mas por que não viver com o companheiro, sem papel passado? Ocorre que o PACS acena com vantagens pecuniárias, como herança e extensão de seguridade social, planos de saúde e moradia ao — como direi? — cônjuge. Recentemente, um recém-pacsado venceu uma longa luta jurídica para usufruir das mordomias de seu parceiro, funcionário da Air France. Nesta condição, o funcionário e seus familiares pagam apenas 10% dos bilhetes aéreos da empresa, para qualquer lugar do mundo. Um importante estímulo ao novo contrato, afinal 90% de abatimento numa volta ao mundo conferem charmes adicionais a qualquer comissário de bordo.

Estivesse Oscar Wilde pacsado com lorde Alfred Douglas, certamente não teria sofrido prisão nem opróbrio. Mas a história da literatura teria perdido um de seus grandes momentos, e nós, o De Profundis. O rebelde foi domesticado. Mais dia menos dia, estará visitando os sogros aos domingos e trocando fraldas de bebês de proveta. Non serviam? Serve sim, depende das vantagens com que o Estado acena.
Não bastasse o enquadramento legal do outlaw pela legislação francesa, neste janeiro o Brasil tentou canonizar a espécie. Um movimento gay na Bahia, que teria descoberto um caso de São Sebastião com o imperador Diocleciano, assumiu o santo como patrono da raça. É a contribuição tupiniquim ao debate, a sacralização do profano.

O homo pode dar adeus a seu charme de ovelha negra. De herético, foi promovido a santo. Requiescat in pace, caríssimo!


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